Registros do processo de pesquisa e visitas aos cuidadores de nascentes dos afluentes do rio Arrudas e também do Córrego do Onça, na Zona Norte de BH e Contagem, ao longo de 6 meses.

VISITA A NASCENTE DO ELDORADO.

O primeiro impacto, a primeira nascente revitalizada.
De onde escoa o azul que, pouco a frente, volta a se misturar com outras águas esquecidas, maltratadas.
As primeiras perguntas sem resposta: por onde começar? como? pra quem? por quem?
O primeiro respiro de alivio, seguido da primeira angústia. Primeiros de vários. 

VISITA AO RIBEIRÃO DO ONÇA E SEU CUIDADOR ITAMAR

Seu Itamar nos contou as histórias do Onça, as possíveis origens do seu nome (o peso do ouro; um proprietário bravo; o habitat das onças) e o seu atual estado...
Nos contou que tinha guardadas fotografias antigas, da época em que o ribeirão acolhia os moradores em suas margens para uma pescaria e uma boa prosa. Contou como não acreditaram os moradores mais jovens - e até mesmo os mais velhos - quando ele mostrou as tais fotografias, dizendo que elas retratavam o mesmo lugar onde hoje todos sentem repulsa. 
No seu projeto mais recente, o seu Itamar, junto com a população, está construindo um parque ciliar para trazer as pessoas de volta para o convívio com as águas. 

- "Como falar sobre as águas, sem falar sobre elas?" , ele nos perguntou. 
Se chamam os meninos para ver o rio, sentir seu cheiro, encarar o lixo que desce com ele, eles jamais iriam. Se constroem um campinho de futebol no mesmo lugar, os meninos conviverão com tudo isso e passarão a ter mais cuidado com a forma como se relacionam com o rio daí pra frente. 

Seu Itamar nos apresentou o seu José, o homem das plantas, de dedo verde.

A horta que se vê nas fotografias abaixo é toda obra dele. 

VISITA À NASCENTE DO CÓRREGO ACABA MUNDO E SEU CUIDADOR LAERTE


"Quanto vale um molho de cebolinhas?" - perguntou o Laerte.
Que antes era coisa simples, que se tinha no quintal de casa, e que pra ter a salsinha que tinha o vizinho, bastava-se trocar uma com a outra.
Hoje, ele contou pensando, e parecia que não acabaria a saga da cebolinha, você pega a chave, liga a moto, coloca gasolina, desce o morro, para, entra no supermercado, busca uma cebolinha que jamais seria tão fresca quanto a que vinha da horta, paga caro, volta pra casa e, provavelmente, nem chega a usar toda ela.
Pode parecer demais um parágrafo inteiro sobre as cebolinhas, mas elas nunca me saíram da cabeça...

E os remédios? O Laerte contou também que um dia passava em frente a uma drogaria e uma voz gritava uma promoção de algum remédio pra dor... as pessoas, completamente saudáveis, entravam aos montes pensando estarem fazendo um ótimo negócio. "Eles não sabem que todos os remédios estão plantados bem aqui, e se esquecem de cuidar disso... não sabem mais pra que serve nenhuma dessas plantas" - dizia ele com tristeza. 

Na nossa despedida ele disse: "porque todos temos algo pra ensinar, eu pra vocês, vocês pra mim..."

E eu só conseguia pensar no que era que eu tinha pra ensinar pra aquele homem...

VISITA AO CÓRREGO DOS JOÕES E SEU CUIDADOR: O SEU NONÔ.

A Bárbara estava prestes a fazer a visita que mais esperava, porque nos contaram que a casa do seu Nonô era "encantada", e essa palavra encantou a Bárbara. 

E era mesmo, tanto a casa quanto ele. Nos guiou calmamente com sua bolsinha marrom por cada canto encantado do lugar que ele construiu pra salvar a nascente que ele chamou de "Joões". E contou, pausadamente pra dar tempo de escrever tudo com cuidado - ele adorava quando nos via escrevendo o que contava - o porque do nome: "Meu pai chamava João. Havia também o seu João da dona Ucina e o João Marinheiro. Moravam na margem do córrego. A intenção é que as pessoas, as famílias numerosas, pudessem ajudar a cuidar do córrego. E isso nunca aconteceu, ficando eu o único responsável para cuidar do córrego desde o outono de 1991."

E cuidou. E tirou do córrego toneladas de lixo. E aproveitou de tudo que era possível aproveitar pra construir o lugar. Plantou, regou, e agora colhe suas próprias cebolinhas. 

No fim, pediu pra que escrevessemos um último pensamento: 

"As nascentes são como pequenos fios de água, que são como nossos capilares. Se fizermos um corte superficial no braço, veremos pequenos pontos de sangue, que breve escorrerão e escoarão para algum lugar. Os rios correm um para o outro, que no amanhecer ou entardecer chegarão ao mar."