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Ensaio para emaranhar vizinhanças, 2025

duo Paisagens Móveis
​Bárbara Lissa e Maria Vaz

 

Trabalho produzido a convite do Instituto Inhotim, para o livro Jardim de Transição.

 

Link para download do livro completo: https://www.inhotim.org.br/publicacao/jardim-de-transicao/

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O tempo é um elemento substancial para a criação de um jardim. Quando recém-plantados, os seres crescem para dentro da terra. Construindo sua base, eles se erguem, se emaranham, ocupam o en- torno e, por vezes, vergam uns sobre os outros. Criam, juntos, modos de coexistência, oferecendo substância para o crescimento mútuo.

Há mais de uma década, no Jardim de Transição emaranham-se Cerrado e Mata Atlântica. Do tempo da solidez ao das rápidas transformações, uma semana e alguns milímetros de chuva fazem com que este jardim, tantas vezes percorrido, manifeste um broto, uma folha, uma flor, um corpo novo, esperado e desconhecido.

O tempo é um elemento substancial para a criação de uma ima- gem. Estudos de campo, de ângulo, de cor e de espessura da caneta. Testes de luz, de transição do filme no rolo da câmera, da ocupação dos desenhos na imagem revelada. A câmera sem espelho, uma Zeiss Ikon de meados do século XX, leva a fotografar — quase — sem ver. Exige calma, minúcia, lentidão. O seu sistema de foco, baseado em uma escala de distância, convoca a aproximação: na ausência de um telêmetro, medir com uma trena produz deslocamentos entre a câmera e o que é fotografado.

Do local onde as imagens foram criadas até o laboratório onde serão reveladas, são pelo menos dois dias e cerca de mil quilômetros percorridos em estado de latência: as imagens estão guarda- das, ainda não foram vistas. E, em questão de minutos, elas apare- cem no banho de químicos reveladores. Nesse intervalo, a bromélia, extraordinariamente vermelha, expõe a sua inflorescência, em um espanto comovente.

Três horas à frente, as imagens atravessam o oceano Atlântico e chegam a uma outra estação. Enquanto as fotografias são produzidas no Jardim de Transição do Inhotim, pela Maria, no hemisfério sul, Bárbara participa de sua criação à distância, no hemisfério norte. Em vez do corpo presente, ela visita o jardim pela imaginação e inscreve, por meio dos desenhos, mais uma camada à imagem. A convivência entre essas duas linguagens na mesma superfície — fotografia e desenho 

— forma novas vizinhanças entre as plantas, criando um contato que desloca a imagem para uma outra temporalidade, residual e onírica. Diferentes transições permeiam as imagens do jardim: aquela que sobrepõe parcialmente as imagens no filme fotográfico; a transição

produzida pela relação de convivência entre a fotografia e o desenho. Entre as luzes que vazam das frestas das copas e a penumbra gerada pela mata densa, o caráter de sonho presente neste ensaio visual é um convite à imersão sensorial por entre as páginas, como um longo passeio pelo convívio entre os dois biomas no Jardim de Transição.

 © 2024 por Paisagens Móveis

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